Crítica: Em Um Bairro de Nova York, sonhos se tornam realidade

Em Um Bairro de Nova York (foto: Reprodução)
Em Um Bairro de Nova York (foto: Reprodução)
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Um calor absurdo de 41° na rua e um apagão de energia em um bairro de Nova York. Para onde vamos? Para uma fiesta na rua, claro! Em Um Bairro de Nova York quer fazer com que esqueçamos da situação atual do mundo por um momento. A adaptação do musical da Broadway não economiza nos visuais estonteantes e traz uma cidade diferente, onde pessoas saem nas ruas, se divertem e se aproximam.

O tratamento visionário de Lin-Manuel Miranda é notável em cada minuto do longa. Após o sucesso estrondoso da adaptação cinematográfica de Hamilton, que conta a história americana prioritariamente pelos olhos de personagens secundários e foi lançada no Disney+, o novo lançamento traz uma celebração à comunidade latina, feita pela comunidade latina. Com um cenário inteiro definido em Washington Heights, uma das artérias da comunidade latina de Nova York no alto de Manhattan desde os anos 60, o filme mostra a luta pela sobrevivência ao mesmo tempo que traz perspectivas autênticas do cotidiano dos moradores do bairro.

O filme entrega diálogos bilíngues em sua totalidade, traduz alguns mas falha em apresentar para o espectador (foto: Reprodução)

Em Um Bairro de Nova York trilhou o caminho para Hamilton ao variar essências do hip-hop, salsa, merengue e outros estilos musicais não-brancos em um conceito que agradasse o público da Broadway. Lin-Manuel Miranda filtra, mas parece exagerar um pouco nos costumes e estereótipos que definem o bairro de Nova York a ponto de confundir um pouco o telespectador. Como um brasileiro que optar por assistir uma versão legendada, por exemplo, precisará se atentar para não se perder com as várias misturas de inglês e espanhol nos diálogos e no português da transcrição. O filme até traz a tradução de algumas sentenças, mas falha com o restante dos diálogos no idioma estrangeiro, onde até a legenda original para surdos e com dificuldades para ouvir se reduz a sinalizar como alguém falando em espanhol. Felizmente, a legenda das cópias brasileiras do filme que chegaram aos cinemas se encarregam de traduzir os termos de ambos os idiomas, facilitando a compreensão.

Com uma missão positiva de mostrar os sonhos de todos, o filme começa com a canção principal In The Heights em uma grandiosa cena inicial de oito minutos que parece vir diretamente de La La Land. O enredo, claro, não deixa de trazer sua carga dramática com números como Paciencia y Fe, uma ode à crença de uma avó cubana que adotou uma vizinhança para si e espera por um sinal divino. Há também o romance no ar, uma tensão entre personagens muito bem entregue que deixa incertos os objetivos dos casais. Canções como Carnaval del Barrio celebram países e origens latinas. Quiara Alegría Hudes, roteirista e autora do livreto original do musical, ousou e não teve medo de errar, escolhendo com sabedoria partes que precisaram ser retiradas e mantendo clichês como o storytelling baseado em um pai contando uma história à crianças de uma nova geração de modo a disfarçar a extravagância fantasiosa da obra como um todo.

Carnaval del Barrio celebra a cultura latina (foto: Reprodução)

Lin-Manuel Miranda, que protagoniza o musical teatral, empresta o papel principal a Anthony Ramos, que conta com paixão já nos oito minutos iniciais da cena e canção inicial o que nos espera pela frente, nos introduzido ao personagem Usnavi e vários outros. Vanessa (Melissa Barrera) sonha em ter sucesso no ramo artístico, enquanto a Vovó Claudia é um antro emocional vivido por Olga Merediz, que também veio do musical original. Miranda ainda faz suas pontas no filme como um sorveteiro que não tem medo de marcar seu território.

O filme é um espetáculo visual recheado de essências latinas que traz a visão de Lin-Manuel Miranda em sua forma completa e nos mostra que o caminho trilhado para Hamilton foi brilhante. Para nós, que dificilmente temos acesso às obras musicais originais que deram vida a adaptações, se apoiar nas adaptações e extrair o máximo delas ao assisti-las é a fórmula para nos aproximarmos do palco do teatro. Apesar da grande fidelidade, um pouco mais de atenção a quem estará assistindo poderia ser considerada para o produto final de uma adaptação.

Em Um Bairro de Nova York estreia nos cinemas em 17 de junho, com pré-estreias disponíveis a partir do dia 12 em locais selecionados.

Caio Alexandre é entusiasta de cinema, exibição, animes e cultura pop em geral. Escreve desde 2008 sobre os mais variados assuntos, mas sempre assumiu a preferência pelo cinema e sua tecnologia embarcada. Não dispensa um filme com um balde de pipoca e refrigerante com o boss no fim de semana. No TV Pop, fala sobre tudo que é tendência no universo da cultura pop. Converse com ele pelo Twitter, em @CaioAlexandre, ou envie um e-mail para [email protected] Leia aqui o histórico do colunista no site.

Leia mais