OPINIÃO

Enfim, voltaram os festivais e, com eles, a livre manifestação artística

Foto de um cartaz contra o presidente Jair Bolsonaro no festival Lollapalooza
Titi Muller, apresentadora da Globo, atrás de um cartaz pedindo a queda de Jair Bolsonaro (foto: Reprodução/Multishow)

Felizmente, após dois anos de interrupção, o Brasil experimenta a volta ativa dos festivais de música. Não somente os festivais de grande porte, mas também os independentes, regionais e/ou de nicho específico. A vibração do público agora surge em alta voltagem, independente de quem se apresentar pelos palcos brasileiros e mundo afora. A determinação dos artistas em recriar conexões com o público está criando novos momentos memoráveis na história da música recente.

Tudo isso pôde ser admirado na nona edição brasileira do festival Lollapalooza, uma marca no início dos anos 90, feita para ser um festival itinerante, sem localização fixa, mas que acabou fazendo sucesso e se espalhando pelo mundo todo, misturando o rock alternativo com o hip hop e demonstrando a força de gêneros que, até então, não eram tão expressivos no mercado, mas que a medida que cresciam, impulsionaram o festival para voos mais altos.

Atualmente, o motivo que faz o Lollapalooza e a cena artística toda estarem no centro das atenções é outro. Para ser mais específico, a censura imposta pelo TSE ao festival e aos artistas que subiram nos palcos do mesmo, inclusive com aviso de multa no caso de reincidência. Obviamente, o tiro saiu pela culatra e só reforçou o coro popular e a “desobediência” nata dos artistas que se apresentaram no festival.

Acho que cabe fazer o adendo que não cabe qualquer comparação da livre manifestação de voto e/ou descontentamento com o atual governo com campanha política, essa sim promovida pelos partidos e suas coligações, com seus respectivos planos de governo e plataformas políticas. O apoio ou não desses candidatos ou pré-candidatos não se configura além da liberdade de expressão, mesmo que os presentes e os que acompanharam o festival não compartilhem do mesmo espectro político.

Dito isto, é até ingenuidade dos partidos políticos e seus representantes acharem que, por qualquer motivo, iriam calar artistas e público de um dos maiores festivais feitos atualmente no mundo, que movimenta a cena musical em São Paulo e no Brasil, inclusive com cobertura massiva da mídia e redes sociais. Mais que isso, é burrice acreditar que artistas precisam de permissão para se manifestarem sobre qualquer coisa, independente do que aquilo possa representar individual e coletivamente.

A arte é diversa e é constituída de muita expressão, inclusive e principalmente da política. Ela pode ser boba, descontraída, leve, sem pretensões, mas sempre chega a algum lugar, sempre leva a qualquer reflexão, por mais que não tenha essa intenção. O simples fato de uma drag queen fazer sucesso dentro e fora do Brasil e ser levada tão a sério por um gesto tão simples como o de estender uma toalha, quer dizer mais do que a censura em si. Quer dizer que o fato de ela ocupar esse espaço faz parte de uma movimentação política que envolve ela, o público e a indústria musical.

Se o conteúdo da toalha incomoda tanto assim, imagina quando ele é feito por alguém que é vítima de quadrilhas virtuais simplesmente por ser quem é, ocupando o lugar que ocupa? São reflexões que só são possíveis fazer através do impacto que a arte causa na vida das pessoas, no valor que a música e os palcos realmente tem para os trabalhadores e as pessoas de modo geral. Sejam bem vindos de volta, festivais! Que sejam palco de muitas manifestações, das mais diversas.

Gabriel Bueno é publicitário de formação, atua no mercado desde 2013 nas áreas de criação, mídia e produção. Viciado em acompanhar música, sempre disposto a comentar premiações, álbuns, videoclipes e tudo que envolve o meio musical. É o autor da coluna Decifrando, publicada no TV Pop e que analisa os principais momentos da indústria fonográfica. Siga o colunista no Twitter: @GabrielGBueno_. Leia aqui o histórico do colunista no site.

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