A contribuição de SOPHIE para a história da música vai muito além de seu trabalho

SOPHIE morreu aos 34 anos (foto: Divulgação)
SOPHIE morreu aos 34 anos (foto: Divulgação)
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O mundo perdeu uma das mentes mais brilhantes da música no último final de semana. Uma mente criativa e pioneira que trouxe um trabalho que poderia parecer estranho quando começou, mas que influencia boa parte das melhores artistas que temos atualmente, além de ter colaborado com algumas dessas. Pioneira por outros vários motivos, ousada como só ela poderia ser, revolucionária só por existir, essa era SOPHIE.

Escocesa, SOPHIE desde criança sabia o que queria ser, mas talvez não imaginasse o que pudesse se tornar. Do sonho de ser uma produtora de música eletrônica, surgiu uma artista que entregou trabalhos que ditariam o futuro da música pop. De início, seu trabalho chamou muito mais a atenção da crítica, por uma abordagem meio caricata de um universo futurista e o uso intenso de sintetizadores, provavelmente porque a música passou e passa por uma fase de pouca experimentação e é raro surgir alguém que, de cara, desafia o padrão. Isso porque a produtora nem aparecia, tal qual outros DJs e produtores, que preferem o anonimato e encaram personas que podem trazer mais receita através do mistério. Mas o objetivo de SOPHIE não era exatamente o mistério. Era o foco no próprio trabalho, a construção de um movimento que pudesse revolucionar a maneira de fazer música e que, mesmo no mainstream, pudesse ser livre.

Liberdade. Essa era a palavra-chave para ela. Porque SOPHIE alcançou o mainstream e se manteve fiel à sua essência. Não é qualquer produtora que tem acesso e consegue trabalhar com a Madonna, mesmo com toda e qualquer ressalva que se faça ao alcance da rainha do pop atualmente. Mesmo que esse alcance não chegue aos charts, chega à carreira, ao nome. E foi o primeiro grande movimento de uma carreira que traria outra sensacional colaboração com Charli XCX, que acabou se confirmando uma grande parceria. Afinal de contas, a carreira de Charli foi redefinida desde então e a tirou de um trilho que seria mais óbvio e a tornaria, de certa forma, desinteressante com o passar do tempo. O que essa parceria mais trouxe foi amadurecimento, ousadia e personalidade para a carreira de ambas.

Desde então, um selo musical teve força suficiente para se tornar um subgênero e uma grande aposta do futuro e contou com total contribuição de SOPHIE para tal título. A PC Music se tornou uma tendência há um bom tempo, mas só agora é perceptível que é tratada como um gênero musical e alcançou vários artistas como Carly Rae Jepsen, Tove Lo, Rina Sawayama e até Pabllo Vittar, que inclusive tem três colaborações com Charli XCX. Isso jamais seria possível sem o trabalho de SOPHIE, que desde o primeiro lançamento já tava chamando a atenção de críticos musicais e revistas especializadas. Esse legado é algo que nunca vai ser apagado.

Se falamos de legado, é importante reconhecer que tudo isso se maximiza quando tivemos uma produtora tão marcante e a primeira trans a receber uma indicação ao Grammy. Eu poderia terminar esse texto sem citar isso, pensando que não tem necessidade de sempre marcar um território.

Mas não é por isso, é simplesmente pra não seja esquecido esse exemplo e mais outras possam sonhar e aparecer na história da música, trazer suas experiências e compartilhar suas visões de mundo, sem se preocupar em necessariamente estar no topo dos charts, mas em fazer propostas artísticas que possam parecer absurdas, mas que são revolucionárias. Encerro indicando o trabalho de SOPHIE e de outra produtora trans, Arca. Eu sei que você pode até achar meio bagunçado, barulhento, sem lógica, mas dê pelo menos uma chance. A gente nunca sabe quando pode aparecer novas mentes brilhantes da música de novo.

Gabriel Bueno é publicitário de formação, atua no mercado desde 2013 nas áreas de criação, mídia e produção. Viciado em acompanhar música, sempre disposto a comentar premiações, álbuns, videoclipes e tudo que envolve o meio musical. É o autor da coluna Decifrando, publicada no TV Pop nas manhãs de quarta-feira. Siga o colunista no Twitter: @GabrielGBueno_. Leia aqui o histórico do colunista no site.

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