O futuro da TV aberta passa cada vez mais pela programação local e popular

Bocão e o seu Balanço Geral são um dos maiores expoentes da programação local no país (foto: Reprodução/Record)
Bocão e o seu Balanço Geral são um dos maiores expoentes da programação local no país (foto: Reprodução/Record)
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A demanda por programação local nunca foi tão frequente como nos últimos três anos. O público quer, cada vez mais, ligar a televisão e assistir um conteúdo pensado especificamente para a sua região, com pessoas da sua cidade e que falem do mesmo jeito que você. A Record, duas décadas atrás, foi a primeira das grandes redes a perceber isso. E a Globo, antes tarde do que nunca, também se tocou que o regionalismo é um caminho sem volta.

Se você visitar alguma cidade do interior, dificilmente verá uma senhora ou um senhor aposentado que tenha algum apego emocional por William Bonner, por exemplo. Mas certamente verá o apresentador de um Balanço Geral da vida sendo tratado como uma espécie de quase Deus, em um regime de quase adoração. E o motivo disso é bem simples: aquela pessoa vive (na teoria) o mesmo que eles. O Bonner não — e nem por isso ele deixa de ter credibilidade com essas pessoas, pelo contrário.

Os apresentadores de telejornais populares tem se tornado uma voz dos fracos e oprimidos, protagonizando muitas vezes uma relação quase digna de filmes americanos de super-heróis. Não são raros os casos de pessoas que, ao presenciarem algo errado, procuram uma emissora de televisão antes de tentar contato com a polícia.

A proximidade física dos comunicadores locais com a população colabora diretamente com a imagem da emissora. Em São Paulo, para não irmos muito longe, ninguém se lembra do SBT quando algo impactante acontece na cidade. Mas se lembra da Globo, da Record e até da Band, afinal de contas, são três emissoras com forte aposta no noticiário regional — e que não raramente derrubam a sua grade de programação habitual para cobrir casos que mudaram o cotidiano da cidade.

Em Salvador, uma das praças em que a Globo tem maior dificuldade em se impor na liderança de audiência, a Record nada de braçadas com José Eduardo Alves, o Bocão. Ele nada mais é que uma espécie de pai dos pobres, que faz distribuição de testes de DNA e de cestas básicas, e que cobra das autoridades coisas banais, como a troca de uma lâmpada no poste da rua da dona Mariazinha.

Numa tentativa de frear o crescimento de Bocão, a Globo contratou Jéssica Senra e a colocou para disputar público com o Balanço Geral regional. Deu errado, como qualquer um com dois neurônios poderia prever. Jéssica é uma ótima âncora, isso sequer se discute, mas não é um rosto popular — e não se trata de um demérito. Existem jornalistas classudos e existem jornalistas povão, e tudo bem com isso.

Não são raros os casos de políticos que se elegeram por conta de suas performances em programas populares. Wilson Lima, atual governador do Amazonas, foi apresentador do Balanço Geral da região por mais de uma década e se popularizou justamente por cobrar das autoridades o que ele não tem conseguido fazer: um bom governo. Mas esse debate fica pra outro dia…

A TV aberta não vai acabar: a audiência crescente do BBB21 é apenas mais uma prova disso. Mas ela vai ficar cada vez mais regional, como já acontece nos Estados Unidos e na Argentina, para continuar recebendo atenção do público. Nesses países, a programação nacional fica restrita ao horário nobre, com o restante do dia destinado para as afiliadas montarem as grades conforme acharem mais conveniente.

E uma programação local forte é boa em todos os sentidos: boa para a população, que vai se enxergar cada vez mais no que está sendo exibido. Boa para as emissoras, que podem conseguir mais anunciantes com conteúdos destinados ao mercado local. Boa para os profissionais, que terão mais vagas de emprego. E, principalmente, boa para o telespectador, que ganha ainda mais variedade.

Gabriel de Oliveira é jornalista e editor-chefe do TV Pop. Incorrigível amante do universo da televisão, fez parte da criação de formatos que estão no ar até hoje em algumas das principais redes do país. Nas horas vagas, alimenta o perfil @RickSouza no Twitter e viaja para conhecer e entender mais do fascinante mundo das afiliadas espalhadas pelo Brasil. Como se já não tivesse muitas coisas pra fazer e pouco tempo pra todas elas, pegou para si a responsabilidade de assumir a Coluna de Segunda (com ou sem trocadilho, fica a critério do leitor) interinamente. Você pode falar com o colunista pelo [email protected] e pelas redes sociais.

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