ANÁLISE

Sedes, torres, estúdios, elenco e mais: a Globo que se reduziu em 2021

Renato Machado foi demitido pela Globo
Renato Machado foi um dos demitidos pela Globo neste ano (foto: Reprodução/TV Globo)

O ano de 2021 termina com uma Globo bem mais enxuta que em seu início. Apenas neste ano, a emissora vendeu um prédio comercial no Rio de Janeiro, sua sede em São Paulo, torres de transmissão e abriu mão de talentos de diversos níveis, como os atores Nathalia Dill, Malvino Salvador, Elizabeth Savalla — esta com quase 50 anos de casa –, autores como Silvio de Abreu e Elizabeth Jhin e os jornalistas Renato Machado, Francisco José, Robinson Cerântula, Isabela Assumpção, entre outros.

A movimentação da Globo nessas demissões, vendas e enxugamentos virou piada até mesmo de forma pública entre seus contratados. Tatá Werneck, no comando do Prêmio Multishow 2021 no começo deste mês, relembrou a polêmica do vestido de 2020 e atualizou a piada com a sua atual contratante: “Não fala em orçamento, porque ano passado eu falei que meu vestido comprava a RedeTV! e fui processada. Mas, de verdade, neste ano, do jeito que a Globo está, este vestido compra a Globo. Quer comprar a sua Globo? Arrasta pra cima e adquira a sua”.

Na mídia, as notícias relacionadas à Globo são sempre negativas. As únicas fontes que tentam transformar o momento atual da Globo em algo positivo são a própria Globo: em abril deste ano, a emissora separou pouco mais de 3 minutos do Jornal Nacional para falar de uma parceria feita com o Google. Já nesta semana, o Valor Econômico, uma das publicações de maior credibilidade do mercado — mas ainda pertencente ao Grupo Globo –, publicou uma matéria anunciando aumento de investimentos para o ano que vem.

Mas o que aconteceu com a Globo? Quais são os riscos que ela corre?

Uma empresa como qualquer outra

A Globo está virando uma empresa como qualquer outra. Você, leitor, que é médico, engenheiro ou contador, já pensou na possibilidade de trabalhar dez meses e descansar outros 26 – e receber pontualmente seu salário durante esses quatro anos? Essa era uma realidade de vários atores do elenco da Globo. E esse modelo é praticamente único no mundo, inclusive quando se fala do universo das celebridades.

Com a redução de seu banco, a Globo está priorizando contratos temporários: apenas quem está no ar recebe, como funciona com qualquer profissão e em qualquer lugar do mundo.

Venda de ativos: tendência de mercado

Em 1999, a Globo inaugurou sua sede em São Paulo com grande festa. Em apenas dois anos, um grande vazio se tornava um centro de produção com estúdios — e que mais tarde teria como anexo um prédio administrativo. O então presidente Fernando Henrique Cardoso, seu vice Marco Maciel, com ministros e outros políticos de renome estiveram na cerimônia de inauguração ao lado de Roberto Marinho e seus familiares.

Neste fim de semana, o complexo foi vendido a um fundo de investimentos por mais de R$ 520 milhões. A Globo continuará usando o local: há um contrato de exclusividade para sua operação continuar lá pelos próximos 15 anos. Grandes empresas estarem em espaços locados já são praticamente regra no mundo corporativo, principalmente para as que não necessitam de uma estrutura particular como a da Globo (estúdios, pé direito alto, amplos corredores para deslocamento de cenografia, etc). O próprio Facebook, aqui no Brasil, tem uma sede alugada na região da Faria Lima, em São Paulo, mesmo tendo recursos para adquirir o endereço que quisesse.

Nos Estados Unidos, a CBS acabou de passar por uma movimentação parecida: O CBS Studio City Lot, em Los Angeles, foi vendido por US$ 1,8 bilhão no final de novembro deste ano – mas com o contrato de locação acertado, o que não mudará em nada, ao menos nos próximos anos, a realidade de funcionários ou de qualquer pessoa que passar pela frente dos estúdios. Nem mesmo o Black Rock, no coração de Manhattan, conhecido como o edifício CBS fugiu da venda: o prédio foi comercializado por US$ 760 milhões, mas segue arrendado ao canal.

Vale lembrar que em 2016, pouco mais de 10 anos após adquiri-los, os estúdios da Record no Rio de Janeiro foram vendidos à Casablanca. E não seria de se surpreender que emissoras como a RedeTV! e o próprio SBT passem a alugar seus estúdios para produtoras e até mesmo concorrentes a médio prazo.

O ônus de ser Globo: repercussão política

Detestada por bolsonaristas e, por enquanto, em lua de mel com parte da esquerda (algo que certamente se romperá caso a esquerda vença as próximas eleições), tudo que envolve a Globo é acompanhado com uma lupa e associado à política. Ainda que uma menor parte de sua receita venha do Governo Federal, a Globo sempre é ridicularizada pelos adoradores de Jair Bolsonaro quando notícias como essa são publicadas – afinal elas são associadas ao corte de verbas públicas, como se elas fossem o fiel da balança entre o lucro e prejuízo da Globo.

Só o futuro validará essa aposta. A Globo, como qualquer empresa, foi impactada pela pandemia e pela crise econômica no Brasil. Mas ela ainda sofre de um terceiro efeito: a pesada concorrência de streamings que chegam ao Brasil. Com o avanço da democratização do acesso à internet, a Globo deixou de concorrer com Record e SBT e passou a lidar com concorrentes pesados, como Netflix, Amazon, Disney e HBO: todos com a carteira cheia de dólares e dispostas a projetar o que é feito por aqui ao mundo inteiro — algo que a Globo ainda não faz.

Para se manter saudável e competitiva nessa briga, ajustes severos são necessários, embora isso inclua muitas vezes alimentar o inimigo. Ao decidir abrir mão de talentos para enxugar sua folha de pagamento, a Globo entrega profissionais treinados no mais alto padrão de qualidade aos seus rivais. A resposta da eficácia dessa estratégia só se saberá daqui quatro ou cinco anos quando os concorrentes começarem a estabelecer seus nomes e produtos nacionais por aqui.

João Gabriel Batista é publicitário, com pós-graduação em Marketing and Sales na Escola de Negócios Saint Paul e MBA em Gestão Empresarial pela FGV. Tem 29 anos e atua com marketing há 11, com passagens por veículos de comunicação, como emissora de TV, rádio e jornal, e multinacionais do segmento de telecom. É analista especial de mercado e negócios no TV Pop, fazendo participações sempre que necessário. Converse com ele por e-mail em [email protected] Leia aqui o histórico do colunista no site e conheça o seu perfil no Linkedin.

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