RedeTV! usa telejornais para espalhar fake news sobre Covid-19

RedeTV! News escolheu Tedros Adhanom para ilustrar reportagem pró-ivermectina (foto: Reprodução/RedeTV!)
RedeTV! News escolheu Tedros Adhanom para ilustrar reportagem pró-ivermectina (foto: Reprodução/RedeTV!)
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Ferrenha defensora do governo de Jair Bolsonaro, a RedeTV! surpreendeu os seus telespectadores ao utilizar seus telejornais para fazer um aceno ainda mais explícito ao presidente. Desde quinta-feira (11), a emissora tem destinado generosos espaços de seus jornalísticos para propagar uma fake news sobre uma suposta eficácia da ivermectina no tratamento de pacientes diagnosticados com Covid-19. O RedeTVNews, principal telejornal da emissora, chegou a veicular uma reportagem de sete minutos — uma infinidade para os noticiosos da TV aberta — com depoimentos de brasileiros que dizem, sem qualquer respaldo médico, terem sido curados pelo fármaco.

A insistência no medicamento foi repetida no Alerta Nacional de sexta-feira (12). Durante 14 minutos, o programa teoricamente policial fez panfletagem pró-ivermectina, com uma reportagem recheada de depoimentos semelhantes aos exibidos pelo RedeTVNews na noite anterior. O âncora do telejornal, Sikêra Jr., aproveitou o conteúdo para sair em defesa de outros medicamentos, como a cloroquina, e para apoiar publicamente o suposto tratamento precoce para o coronavírus.

O conteúdo foi baseado no apelo de médicos portugueses para a inclusão do fármaco recomendado para acelerar a eliminação do vírus no corpo humano. A emissora, porém, omitiu um detalhe muito importante: no mesmo dia 11, quando a primeira reportagem foi ao ar, a Infarmed (versão lusitana da ANVISA) foi categórica ao informar que não apoiaria o uso do remédio, já que nem mesmo a MSD, maior laboratório produtor da droga, defende o seu uso para o tratamento de Covid-19.

Além disso, o RedeTVNews fez uso de técnicas jornalísticas no mínimo duvidosas para gerar bons ganchos para que a sua produção repercutisse entre os fãs de Jair Bolsonaro. A reportagem apostou na exibição de imagens de Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, com a tarja “médicos europeus pedem uso urgente da ivermectina”, mesmo que ele não tivesse nada a ver com o conteúdo. E foi justamente esse o momento escolhido pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro, para divulgar o material em sua página oficial no Twitter.

A escolha questionável das imagens faz com que o telespectador mais desavisado acredite que o uso do medicamento foi apoiado pela OMS, quando na verdade não foi. A emissora, por sinal, aparenta ter vergonha do próprio conteúdo: a extensa reportagem foi casualmente suprimida da “edição completa” do RedeTVNews publicada na página oficial do canal no YouTube. O site Teleguiado, porém, reproduziu o material na íntegra.

Franz Vacek, superintendente de Jornalismo da RedeTV!, não parece estar preocupado com a situação. Em seu perfil no Twitter, o executivo tem ignorado menções sobre o assunto e preferiu maquiar dados de audiência do Operação de Risco, jornalístico semanal que cobre ações da Polícia em São Paulo. “SEGUNDO LUGAR AUDIÊNCIA GSP. Estou muito feliz. Parabéns à todos os envolvidos. Vamos em frente”, afirmou ele, publicando o logo da atração.

O Operação de Risco, porém, não ficou na vice-liderança na Grande São Paulo em momento algum. Durante dois minutos, entre 23h03 e 23h04, o programa de Jorge Lordello apenas conseguiu empatar tecnicamente com a Record e com o SBT, mas sempre tendo desvantagem decimal para as duas concorrentes.


Atualizado em 15 de março, às 16h35: o departamento de Comunicação da RedeTV! entrou em contato com o TV Pop e pediu um espaço para rebater as informações publicadas na reportagem. Por meio de sua assessoria de imprensa, a emissora emitiu o seguinte comunicado, reproduzido na íntegra:

“Diferentemente do que informa o texto, a reportagem veiculada no RedeTVNews não propagou informações inverídicas em relação ao uso da Ivermectina. Trata-se de uma matéria jornalística sobre o uso da substância no tratamento preventivo a Covid-19 que volta a ser debatido na Europa, e a relação entre o médico e o paciente.

No entanto, em dois momentos a reportagem destaca a ausência de comprovação científica e das agências controladoras sobre a eficácia do remédio, durante os OFFs da correspondente internacional em Londres, Erika Abreu, e do repórter Giovanni César, de São Paulo.

Erika informa que “a Organização Mundial da Saúde chegou a divulgar estudos que identificavam a ineficácia do medicamento” (2’24” vídeo). Giovanni afirma que “no Brasil, assim como a Cloroquina e a Hidroxicloroquina, a Ivermectina está entre as drogas mais usadas para a prevenção e tratamento de casos leves de Covid-19. Nenhum desses medicamentos têm eficácia comprovada, o que levou médicos e cientistas a não aceitarem a utilização dos remédios nem no tratamento precoce nem quando ocorre a infecção pelo novo coronavírus” (3’43” vídeo).

A matéria menciona que a Infarmed, autoridade nacional do medicamento em Portugal, avaliava os pedidos de uso do remédio como tratamento precoce da doença, após petição criada por um grupo de médicos portugueses para que a substância passasse a ser recomendada em casos de Covid-19. Apesar da correspondente Erika Abreu ter enviado questionamentos à Infarmed, sem obter retorno, no dia em que a reportagem foi ao ar, a agência portuguesa declarou insuficiente a evidência para uso da substância através de sua página na internet. A posição será atualizada no RedeTVNews desta segunda-feira (15) juntamente com o parecer de outras agências reguladoras europeias também procuradas.

A reportagem também ressalta aspectos da doença na relação médico-paciente. Entre as fontes ouvidas, a patologista e pediatra Natasha Slhessarenko, do Conselho Federal de Medicina, expõe a importância de explicar ao paciente o que existe hoje em termos de tratamentos propalados, que são estudos experimentais, conduzindo assim uma relação transparente”.

No comunicado enviado pela RedeTV!, a insistência em um suposto tratamento precoce para a Covid-19 chama a atenção, já que diversas autoridades da saúde em todo o mundo já se manifestaram rechaçando a existência de um coquetel medicamentoso para a doença. A emissora também não se manifestou sobre a escolha de imagens de Tedros Adhanom para ilustrar a reportagem, e tampouco justificou o motivo do conteúdo ter sido omitido da íntegra do telejornal publicada na página oficial da rede no YouTube.


Atualizado em 15 de março, às 21h25: em um novo contato feito com o TV Pop, a RedeTV! pediu um novo espaço para esclarecer os dados de audiência publicados pelo jornalista Franz Vacek, que atua como superintendente do departamento de Jornalismo da emissora. A seguir, o posicionamento enviado pela assessoria da rede:

“Franz Vacek é um respeitado jornalista e executivo com um extenso currículo profissional. Repudiamos formalmente que a postagem feita no Instagram pessoal dele tenha sido uma “maquiagem”. O Operação de Risco é um dos carros chefes de audiência da emissora que é consolidada para cima ou para baixo no dia seguinte. O intuito da postagem foi incentivar a competente equipe do programa que, semanalmente, desponta entre as primeiras colocações e merece correção”.

Conforme dito na reportagem publicada na madrugada de domingo, o Operação de Risco não ocupou a segunda colocação de audiência na Grande São Paulo. A derrota na medição prévia, que já foi apontada na versão inicial deste texto, foi comprovada na aferição consolidada dos dados de sábado.

O jornalístico, que foi ao ar 22h09 e 23h04, teve média de 2,2 pontos na região e não foi vice-líder em momento algum: a maior aproximação da RedeTV! do posto foi às 23h03, quando a emissora pontuava 3,8, contra 4,0 da Record e do SBT. O TV Pop mantém as informações publicadas e ressalta a importância da casa decimal para distinguir a colocação dos canais em casos de audiências muito próximas, como foi o caso da noite de sábado.

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