O impacto do novo clipe de Lil Nas X ultrapassa todas as bolhas musicais

Novo hit de Lil Nas X ultrapassa todas as bolhas musicais (foto: Divulgação)
Novo hit de Lil Nas X ultrapassa todas as bolhas musicais (foto: Divulgação)
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Quando Old Town Road foi lançada, Lil Nas X era somente um artista independente buscando seu espaço na indústria. Com o tempo, a música se tornou um hit orgânico e abocanhou o topo da parada americana, chegando tão longe que é a música que passou mais tempo em primeiro lugar, recorde que se tornou um mito nas mãos de Mariah Carey com One Sweet Day, igualado posteriormente por Despacito. Até então, o rapper não parecia ser tão diferente de diversos outros artistas que conquistaram um espaço tão grande.

Hoje já não podemos dizer o mesmo. Toda a visibilidade que Nas X conquistou ganhou ainda mais sentido com as bandeiras que o cercam, como rapper, negro e gay. A junção improvável dessas características não pareciam oferecer a longevidade que seu talento merecia.

Assim como aconteceu com Cardi B e sua WAP, Lil Nas X estava disposto a contrariar quem torcia por seu declínio. Como já explicitado aqui, Cardi passou por um período de certa morosidade em sua carreira após uma estreia brilhante, mas superou tudo isso entregando um dos maiores hits de 2020, recebido com certo choque.

A história se repete agora com MONTERO (Call Me By Your Name), novo single de Lil Nas X. A música e o clipe não disfarçam onde querem chegar e não precisam de códigos para isso. O rapper canta sobre um relacionamento com alguém que conheceu durante o processo de criação do álbum e acabou se apaixonando, mas sem entender bem se ele estava bem ou até se havia problemas com a sexualidade.

Contar essa história com uma certa naturalidade e sem tanto receio de expor os próprios desejos é uma motivação muito maior do que simplesmente estimular a liberdade criativa, mas sim oferecê-la a outros artistas LGBT+.

O clipe leva Lil Nas, literalmente, do céu ao inferno, passando pelo Jardim do Éden e o juízo final. A narrativa caminha por metáforas para expor a mensagem de que a identidade do artista e de pessoas LGBT+ estão fadadas ao julgamento e sofrimento eterno, configurados pelo inferno e o diabo.

A ousadia de “dançar com o diabo” é uma forma de abrir portas para que mais artistas como Lil Nas tenham a possibilidade de fazer arte. É como se fosse impossível regredir daqui em diante. As críticas são naturais e foram calculadas, justamente para servir como tática de marketing ao invés de alimentar um boicote.

Talvez a maior polêmica do lançamento tenha a ver com a indústria. A cena do segundo refrão, em que Lil Nas desce do céu para o inferno em uma barra de pole dance, criou certa controvérsia ao ser comparado com uma cena do clipe de “Cellophane”, de FKA twigs, artista britânica underground ao extremo.

O diretor do clipe de FKA chegou a postar a comparação em uma rede social, brincando que Lil Nas X poderia contratá-lo ao invés de copiá-lo, além de dizer que a gravadora do rapper o procurou meses atrás para falar sobre a ideia criativa do clipe. Realmente, a comparação é inevitável, até porque o clipe da cantora britânica teve sua criatividade reconhecida por diversos prêmios e perdeu o Grammy de Melhor Vídeo justamente para Lil Nas X.

A reflexão do diretor de “Cellophane” é que a indústria com suas grandes gravadoras sempre vai buscar fonte de inspiração em artistas independentes ou que não tem grandes amarras para exercerem sua criatividade de forma livre. E isso faz sentido.

O ponto é que não dá para ignorar a crescente da carreira de Lil Nas X. O que seria somente mais um rapper no meio da multidão, se tornou uma figura essencial para garantir que a representatividade seja mais um dos caminhos a se perseguir na indústria musical. Acompanhar os passos dele a partir daqui é um conselho que eu daria a todos os amantes da música, porque ele vai além de músicas legais para fazer uma coreografia no TikTok. Ele tem a oportunidade de tornar o caminho de uma legião de artistas menos difícil, pelo menos. Fiquem de olho.

Gabriel Bueno é publicitário de formação, atua no mercado desde 2013 nas áreas de criação, mídia e produção. Viciado em acompanhar música, sempre disposto a comentar premiações, álbuns, videoclipes e tudo que envolve o meio musical. É o autor da coluna Decifrando, publicada no TV Pop sempre nas quartas. Siga o colunista no Twitter: @GabrielGBueno_. Leia aqui o histórico do colunista no site.

Leia mais