Crítica: O Tempo Com Você e como a animação 2D ainda tem muito a entregar

Hina Amano. (foto: Reprodução/CoMix Wave Films)
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Há pouco tempo tive a oportunidade de mergulhar de cabeça na cultura oriental, e é verdade que um dos maiores ícones dela no Brasil são os animes. Com um destaque muito tímido na mídia, no entanto, ocasiões especiais motivam uma miríade de fãs a seguirem a paixão por onde passa. E assim foi em O Tempo Com Você (天気のこ/Tenki no Ko), mais recente longa do diretor Makoto Shinkai.

Filmes desse gênero são raros de serem vistos na programação dos cinemas brasileiros, e quando acontecem, geralmente são através de programações especiais em poucas redes exibidoras, por pouco tempo. Previsto para chegar no dia 26 de novembro, o filme sofreu diversos adiamentos e até um adiantamento. Isso pode não fazer sentido, mas a linha temporal passou de 26 de novembro para 12 de dezembro, 14 de janeiro e acabou chegando um pouco antes, no dia 2 de janeiro. A Cinépolis o exibe através do selo dedicado ao conteúdo alternativo “Cinépolis +QueCine” e até então estava com a exclusividade do filme, mas ele acabou estreando também nas redes UCI e Cinemark após os atrasos.

É difícil saber a razão de tantas mudanças na data: grande parte dos cinemas já estavam reabertos no Brasil, o que também contrasta com a preocupação do mercado exibidor que está carente de lançamentos. Também não dá para usar um possível atraso na dublagem, que, logo após os créditos finais, indicou a data de março de 2020. Competir com Mulher-Maravilha 1984?

Cena inicial já mostra que chuva será cenário natural em O Tempo Com Você. (foto: Reprodução/CoMix Wave Films)

Indo ao que interessa, O Tempo Com Você liderou a bilheteria de 2019 no Japão, foi aclamado em festivais internacionais como o de Toronto e marcou presença no Brasil já no mesmo ano, no Festival do Rio. O romance-fantástico traz Hodaka Morishima, que fugiu de casa em busca de novos rumos e Hina Amano, uma menina do tempo capaz de mudar a condição climática com uma prece.

Pelo bem ou pelo mal, o mundo dos animes é rico em produções dos mais diversos tipos, desde o romance água-com-açúcar até robôs gigantes destruindo planetas. Porém, a receita de Makoto Shinkai, exala originalidade e visuais estonteantes, embora ainda escore em clichês para manter a atenção do telespectador. Para quem viu obras anteriores do diretor como Your Name (2016), não vai se surpreender. A qualidade se manteve.

Embalados pela excelente trilha sonora original composta e cantada pelo grupo RADWIMPS e Toko Miura, os cenários que retratam a chuvosa metrópole de Tóquio trazem uma imersão absurda e esbanjam atenção aos detalhes, mesmo desconexa da realidade. A percepção do clima como um personagem do filme, com sua personalidade, estilo e “humor” é o segredo do Shinkai: o diretor liga a iluminação e a própria condição climática das cenas diretamente com o humor da menina-do-sol sem qualquer percepção de estar sendo forçado, conseguindo ir do claro ao sombrio em poucos minutos, conforme a trama se desenvolve. Já as cenas tradicionais em animes como o nervosismo ao visitar a casa de uma menina pela primeira vez ou as piadas com a perversão dos meninos te lembram que você ainda está vendo uma animação japonesa. Tudo isso faz com que as quase duas horas do filme passem num piscar de olhos e isso nos mostra o quanto a animação 2D ainda tem muito a oferecer para o mundo.

A tragicidade do enredo é mais um segredo de Makoto Shinkai. Os mais atentos vão perceber a essência já vista no próprio Your Name, com um final de encher os olhos ao mesmo tempo que instiga a antipatia ao telespectador. Ele passa a mensagem do quanto pode custar a busca desenfreada pela ambição do amor e as consequências de decisões egoístas nas entrelinhas, por mais nobres que sejam as intenções. O final acaba corrido e falha em aprofundar os personagens (principalmente o casal protagonista) na trama a tempo do ato final, mas é difícil dizer que só isso vai tirar o brilho do restante da obra.

O espectador se sente imerso (trocadilho não intencional) em Tóquio junto dos protagonistas. (foto: Reprodução/CoMix Wave Films)

Como um entusiasta de exibição, não pude deixar de notar algumas particularidades no cinema: tendo assistido a versão dublada e a versão legendada uma atrás da outra, é notável o desafio constante de adaptar o idioma japonês e suas particularidades em um ambiente limitado.

Na ótima dublagem, realizada pela Tecniart (Rio de Janeiro), a localização se apoiou na técnica de voiceover para traduzir o que estava na tela, provavelmente procurando abranger maior público. Essa técnica consiste em um narrador lendo o objeto na tela, mas foi usada em exagero, repetindo nomes e até lendo “meia-noite” em um relógio na tela que exibia “00:00”.

Na versão legendada, um conforto maior ao ter tudo traduzido na própria legenda, embora o caso aqui seja de que faltaram algumas traduções, o que pode deixar o telespectador mais perdido na cena. Além disso, a ausência de revisão acabou causando um problema de formatação do texto na tela em uma cena, exibindo um código no lugar do diálogo. Houve, de fato, uma falta de atenção, mas não dá pra acusar falta de carinho na tradução da obra, que teve até seu título adaptado nas exibições.

Exibição no cinema. (foto: Caio Alexandre/Arquivo Pessoal)

O Tempo Com Você está em cartaz nos cinemas em versões dubladas e legendadas.

Caio Alexandre é entusiasta de cinema, exibição, animes e cultura pop em geral. Escreve desde 2008 sobre os mais variados assuntos, mas sempre assumiu a preferência pelo cinema e sua tecnologia embarcada. Não dispensa um filme com um balde de pipoca e refrigerante com o boss no fim de semana. No TV Pop, fala nas manhãs de quinta sobre tudo que é tendência no universo da cultura pop. Converse com ele pelo Twitter, em @CaioAlexandre, ou envie um e-mail para [email protected] Leia aqui o histórico do colunista no site.

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