Record irá lançar “manual anti-Mariana Godoy” de regras para jornalistas

Mariana Godoy foi a gota d'água para criação de manual de regras para jornalistas (foto: Reprodução/Record)
Mariana Godoy foi a gota d'água para criação de manual de regras para jornalistas (foto: Reprodução/Record)
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

A Record publicará nos próximos dias um rígido manual com regras de conduta para funcionários do departamento de Jornalismo, com foco em âncoras e repórteres de telejornais. A emissora passará a ter uma série de normas para os colaboradores do setor, englobando até mesmo publicações feitas por eles em perfis pessoais mantidos nas redes sociais. Dentre as determinações que passarão a ser formalmente exigidas pela empresa estão um veto de publicação de conteúdos com teor político, principalmente em casos que possam ir de encontro com a linha editorial da rede, e a proibição de comentários em programas jornalísticos sem a anuência prévia da direção.

A futura publicação ganhou o apelido de manual anti-Mariana Godoy nos bastidores da Record. Não é de hoje que a emissora pensa em criar regras mais rígidas para seus jornalistas, mas a ideia sempre acabava esquecida por conta de outras prioridades do setor. A situação mudou depois do dia 29 de julho, quando a âncora do Fala Brasil disse no ar que um evento promovido por Jair Bolsonaro era “bizarro”, provocando um grande incômodo entre o alto escalão do governo e a Igreja Universal, principal anunciante da rede.

Dias depois, os executivos da emissora dispararam um comunicado interno proibindo quaisquer tipo de comentários durante os telejornais, e ressaltando que apenas comentaristas são pagos para isso. A diretoria da rede decidiu vetar até mesmo expressões faciais, orientando que os âncoras devem permanecer apáticos independentemente do tipo de notícia que estiver sendo veiculada — a determinação lembra uma antiga ordem de Silvio Santos, que proibiu Rachel Sheherazade de mexer as sobrancelhas durante a ancoragem do SBT Brasil.

Com a criação do manual de conduta, as determinações feitas por e-mail se transformam, efetivamente, em normas que podem culminar até com a demissão de funcionários que se recusem a aceitar o proposto pela empresa. Outras emissoras, como a Globo e a CNN Brasil, já tem regras de comportamento que devem ser seguidas por profissionais dentro e fora do ambiente das redes. Elas, porém, optaram por tornar seus manuais públicos, como uma forma de mostrar transparência ao mercado e aos telespectadores. A Record não deverá seguir o mesmo caminho, mantendo o material como uma publicação de conteúdo interno e restrito.

Mariana Godoy pagou o pato

Eleita pelos colegas de trabalho como a principal responsável para a criação das normas, Mariana Godoy foi apenas o estopim para que a Record decidisse tirar o assunto do papel. A emissora já havia planejado a criação do material em pelo menos outras duas ocasiões recentes, e sempre motivada por atitudes de apresentadoras. O TV Pop conversou com executivos do departamento de Jornalismo e apurou que o manual começou a ser construído em abril de 2020, mês em que Adriana Araújo foi afastada do Jornal da Record por uma crise de choro nos bastidores.

Insatisfeita com a linha editorial adotada pelo canal, a âncora do principal telejornal da rede decidiu confrontar sua chefia e pediu por mais liberdade. Não teve sucesso, e acabou sendo premiada com “férias” de 30 dias. Ela chegou a voltar ao posto, mas continuou se opondo ao pregado pelo jornalístico que comandava, usando as redes sociais para mostrar um contraponto ao noticiado pela empresa. Dois meses depois, foi defenestrada da bancada e substituída pela repórter Christina Lemos. Em março deste ano, Adriana acabou demitida depois de 15 anos.

A outra âncora que provocou avanços na construção do material foi Mariana Martins. Contratada há dois anos como grande aposta para rejuvenescer o telejornalismo da emissora em Goiás, a apresentadora caiu em desgraça por não aceitar usar suas redes sociais como um mural de tragédias. Durante uma reunião, executivos locais exibiram fotos tiradas de seu perfil em uma plataforma pública, dizendo que ela estaria tentando sensualizar com fotos de biquíni e aparecer mais do que as notícias. Ela foi demitida em maio, e afirmou que foi vítima de “assédio e machismo” no canal. Dias depois de sua saída, profissionais receberam a recomendação de não publicar fotos em trajes de banho.

Leia mais