A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) divulgou uma carta aberta com críticas à direção do BBB 26. O órgão vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos aponta que a dinâmica do quarto branco ultrapassou os limites do entretenimento. O texto acusa a Globo de reproduzir métodos de tortura semelhantes aos praticados durante o regime militar no país.
O documento destaca o risco de banalizar o sofrimento físico e psicológico como forma de espetáculo televisivo para o público brasileiro. A organização afirma que os castigos impostos aos participantes ferem a dignidade humana e violam a Constituição Federal. Procurada pelo site Notícias da TV, a Comunicação da emissora não se manifestou sobre o caso.
A carta cita condições extremas como privação de sono, desorientação espacial e posições físicas insustentáveis por longos períodos. Os autores do texto argumentam que a Globo testa os limites da humanidade ao submeter corpos e mentes a tal situação. Eles relembram que a lei proíbe a tortura e o tratamento degradante como um valor absoluto e cobram o dever social da televisão.
Representantes do Ministério Público Federal e da sociedade civil assinam o documento encaminhado a Leonora Bardini, diretora da emissora. Entre os nomes está Vera Paiva, filha do deputado Rubens Paiva (1929-1971), assassinado na ditadura. A história dele inspirou o filme Ainda Estou Aqui (2024), vencedor do Oscar de melhor filme internacional. A comissão atua para reconhecer mortos e desaparecidos.
A polêmica refere-se à disputa encerrada na madrugada do dia 18 de janeiro. A participante Rafaella Jaqueira sofreu um mal-estar enquanto tentava se equilibrar em uma plataforma e desmaiou após mais de 120 horas no quarto branco. O tempo de prova marcou um recorde histórico para o formato da Globo. O grupo enfrentou barulhos incômodos e teve acesso restrito a água e biscoitos no cômodo totalmente fechado.
A equipe médica atendeu Rafaella e a retirou da competição imediatamente após o incidente de saúde no confinamento. Depois, o apresentador Tadeu Schmidt oficializou a entrada de Chaiany Andrade, Gabriela Saporito, Leandro Rocha e Matheus Moreira no reality show. Os candidatos ficaram presos no local desde 12 de janeiro e não foram os escolhidos pelo público nas casas de vidro.
Leia a carta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP):
‘Se um trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem.’ Wagner Moura.
Nós, abaixo assinadas, integrantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), instituída pela Lei 9.140/95, escrevemos esta carta aberta movidas por uma profunda inquietação ética. O que se assistiu recentemente no programa Big Brother Brasil, com a dinâmica chamada de quarto branco, ultrapassou as fronteiras do jogo e do entretenimento para ingressar em um terreno perigoso que flerta com a violência física e o flagelo psicológico.
É impossível ignorar que tais métodos guardam uma semelhança aterradora com as práticas de tortura empregadas sistematicamente pela ditadura civil-militar brasileira, um período de dor que ainda deixa cicatrizes na memória de nossa nação, mas que, por seu apelo, atraem uma plateia de milhões de pessoas.
Ao utilizar dinâmicas que submetem corpos e mentes a condições extremas –privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção de tempo e posições físicas impossíveis de serem sustentadas por longos períodos– a emissora não apenas testa os limites de seus participantes, mas também os limites da nossa própria humanidade.
Sabe-se que a prática do quarto branco não é novidade no programa em questão, mas a sua utilização vem sendo intensificada, tanto que, na madrugada do último dia 18 de janeiro, umas das participantes chegou a desmaiar, após mais de 100 (cem) horas de reclusão no aludido quarto e depois de ser obrigada a permanecer em pé em uma espécie de pedestal com ínfimo diâmetro, prática utilizada como tortura durante as ditaduras latino-americanas.
Não podemos aceitar o argumento de que o ‘consentimento’ dos participantes ou a ‘busca pelo prêmio’ validem tais práticas. A nossa Constituição Federal, no seu Artigo 5º, é clara: a proibição da tortura e do tratamento degradante é um valor absoluto. Ao transformar esse tipo de sofrimento em espetáculo, a televisão brasileira falha com o seu dever social.
Mais do que uma escolha editorial, a programação de uma emissora é regida por normas constitucionais específicas. O Artigo 221 da Carta Magna estabelece que as concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando sempre os ‘valores éticos e sociais da pessoa e da família’. Uma concessão pública deveria ser utilizada para passar valores entre as gerações –como disse o ator acima citado, em consonância com os princípios constitucionais– e não para reforçar traumas coletivos.
Na psicologia e na sociologia, constata-se que o trauma não resolvido tende a ser transmitido aos descendentes, seja pelo comportamento, pela cultura ou pela negligência institucional.
Assim, como integrantes da CEMDP, órgão de Estado, responsável por medidas de memória, verdade e reparação das vítimas da ditadura e seus familiares, esperamos que a presente carta sirva de alerta para que: a) a emissora considere seriamente a possibilidade de rever a utilização das práticas aqui descritas; e que b) a própria sociedade brasileira seja chamada a refletir sobre sua adesão a essa aparente forma de entretenimento.
A memória das vítimas da violência de Estado exige que não sejamos coniventes com a dessensibilização da população diante da dor alheia.
Assinam esta carta,
DIVA SOARES SANTANA
Representante dos familiares de mortos e desaparecidos políticosVERA FACCIOLLA PAIVA
Representante da sociedade civilMARIA CECÍLIA ADÃO
Representante da sociedade civilNATÁLIA BONAVIDES
Representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos DeputadosEUGÊNIA AUGUSTA GONZAGA
Procuradora Regional da República


