Francisco José afirmou que enfrentou preconceito nos bastidores da Globo por causa de seu sotaque nordestino. O jornalista, natural de Crato, no Ceará, contou que chegou a receber ameaça de demissão por se recusar a mudar a forma de falar. O repórter relembrou episódios em que foi pressionado a alterar a pronúncia de algumas palavras. Segundo ele, a resistência em modificar o sotaque gerou críticas dentro da emissora.
“Inclusive ameaça de demissão. Faziam bullying com a minha maneira de falar, que eu falo até hoje. Eu me recusava [a mudar]”, afirmou em conversa com o Sem Censura, da TV Brasil. O jornalista chegou a procurar orientação da fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller (1925-2024), profissional que trabalhava na Globo auxiliando apresentadores e repórteres.
“Ela falou para eles: ‘Não tem jeito. Ele não muda, não quer mudar, e eu acho que ele tá certo’”, relatou. Outro episódio ocorreu durante a cobertura da Copa do Mundo de 1978, na Argentina. O jornalista pronunciava “Rusário”, ao se referir à cidade de Rosário, o que gerou críticas internas. Mesmo diante da pressão, ele decidiu manter a forma como falava. “Desse jeito, não. Se eu chegar falando ‘Rosário’ no Nordeste, vão dizer: ‘Que é isso? Ficou doido?’”, contou.
Segundo o jornalista, a situação chegou ao conhecimento de Armando Nogueira (1927-2010). “Até que um dia disseram: ‘O Armando mandou dizer que ou você fala direito ou te mandam embora’. Eu falei: ‘Diga a ele que tem um voo às 11 horas. Se não quiserem assim, eu pego o voo e vou embora’”, contou.
Francisco José afirmou que o episódio acabou garantindo sua autonomia profissional dentro da emissora. Ele também destacou que, quando iniciou a trajetória na Globo, havia poucos repórteres atuando fora do eixo Rio–São Paulo. “Foi assim que eu comprei a minha independência. Quando eu entrei na Globo, não tinha repórter no Nordeste. Só no Rio, São Paulo e Brasília. Aí entra um sotaque sertanejo, diferente de tudo. Durante oito anos, eu fui o único repórter da Globo do Nordeste”, disse.
Demitido em 2021, Francisco José ficou 46 anos na Globo. Na época, o repórter afirmou que estava bem e garantiu que continuaria trabalhando. “Estou bem. E vou voltar a trabalhar. Fazer documentários. Esperar a pandemia passar para continuar com as palestras, através da minha agência”, disse.


