Ao aceitar o desafio de escrever a nova versão de Dona Beija (1986), Daniel Berlinsky sabia que não bastava apenas revisitar um clássico da teledramaturgia brasileira, mas reinterpretar a história sob uma perspectiva atual. Exibida originalmente na extinta TV Manchete (1983-1999), a trama ganhou uma releitura como Dona Beja.
“É uma alegria e uma responsabilidade gigante”, afirmou o autor. “Quando recebi o convite, senti o tamanho do desafio. Eu assistia a novela escondido quando era criança, então sabia que estava mexendo com uma história que marcou muita gente”, relembrou. Na nova versão, Grazi Massafera assumiu o papel que consagrou Maitê Proença nos anos 1980.
A adaptação busca trazer uma abordagem mais atual para temas sociais presentes na narrativa, como racismo e diversidade, ampliando discussões que, segundo o autor, sempre existiram, mas nem sempre foram retratadas de forma explícita. “Esses problemas não são de agora. Algumas pessoas acham que só agora a gente precisa falar de diversidade ou de racismo, mas eles sempre existiram. A diferença é que antes eram naturalizados”, sinalizou Daniel Berlinsky em conversa com O Tempo.
Ele destacou que a proposta em Dona Beja foi evidenciar experiências já presentes no contexto histórico da trama, mas que não tinham o mesmo espaço na dramaturgia da época. Além da atualização temática, a nova versão também passou por mudanças estruturais. Diferente das novelas tradicionais, que costumavam ter mais de 80 capítulos, a produção foi pensada para o streaming, com 40 e ritmo mais ágil.
“Se você assistir a uma novela antiga, percebe que o ritmo é outro. A nossa cabeça está em outra velocidade. A gente se acostumou a narrativas mais rápidas”, explicou. Ainda assim, o autor reconhece que essa aceleração pode reduzir o tempo de aprofundamento de algumas cenas. “A cabeça da gente está tão rápida que às vezes perdemos a chance de mergulhar mais em algumas cenas. Eu sinto falta disso”, concluiu.


