A crise institucional da GloboNews ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (8): responsável por chefiar a Redação do canal de notícias da Globo há 13 anos, o jornalista Carlos Jardim teve sua saída oficializada por Ricardo Villela, diretor-geral de Jornalismo da empresa. Em um extenso comunicado interno distribuído aos profissionais da emissora, o executivo diz que Jardim sinalizou o seu desejo de deixar a rede ainda em março, quando o Estúdio i exibiu um PowerPoint com informações erradas, em um episódio que colocou a credibilidade dos jornalistas da TV em xeque.
Profissional experiente, Carlos Jardim estava na Globo desde 1997. Ele passou por diversos cargos antes de se tornar o segundo nome da hierarquia da GloboNews — somente Miguel Athayde, o diretor-geral do canal de notícias, estava acima dele no organograma da rede. A partir de junho, seu cargo será ocupado por Denise Lacerda, coordenadora do canal em Brasília desde 2020. Ela é contratada da emissora desde 1996 e iniciou sua trajetória como produtora do Jornal Nacional, tendo passagens também pelo Jornal Hoje, Jornal da Globo e Bom dia Brasil.
Com 41 anos de carreira, Jardim decidiu se aposentar do jornalismo. De acordo com o texto escrito por Ricardo Villela, ele decidiu se dedicar ao mundo das artes: o futuro ex-executivo da Globo está em cartaz em um teatro do Rio de Janeiro com uma peça autoral. Além do teatro, ele também passará a se dedicar ao cinema. A movimentação não chega a ser uma surpresa, já que ele foi um dos nomes responsáveis pela criação do Encontro com Fátima Bernardes (2012-2022).
A trajetória estrelada, no entanto, também foi marcada por um relacionamento conturbado com seus colegas de trabalho: a reportagem do TV Pop apurou que Carlos Jardim fazia parte da lista de campeões de queixas no departamento de Compliance da Globo. A maioria esmagadora da Redação da GloboNews não fez questão alguma de disfarçar a felicidade com a saída do executivo, que era visto por vários funcionários como um assediador moral contumaz.
O TV Pop teve acesso, em primeira mão, ao e-mail de Ricardo Villela anunciando as mudanças na direção da GloboNews. Confira:
Amigos,
Antes de sair de férias, ainda em março, nosso colega Carlos Jardim pediu uma conversa comigo. Categórico, com a franqueza e o estilo direto que o caracterizam, me informou (e o verbo é este mesmo, “informou”, já que não deu margem à contra-argumentação) que deixaria o jornalismo para se dedicar ao teatro, ao cinema, à cultura.
Eu já desconfiava que essa conversa chegaria. Para muitos colegas, Jardim é “só” o jornalista de estilo direto e reto que, em 41 anos de carreira, acumulou o enfrentamento de pedreiras — sempre com muito sucesso. O editor das reportagens de Tim Lopes, vencedoras do Prêmio Esso. Um dos comandantes da cobertura da ocupação do Complexo do Alemão, nosso prêmio Emmy. O chefe de redação da Globonews à frente de eleições (Dilma, Bolsonaro, Lula), tragédias climáticas, guerras, conclave, pandemia, tentativa de golpe.
Mas quem convive mais de perto com ele sabe que há um outro lado fascinante do Jardim. Fez parte do time de roteiristas da Escolinha do Professor Raimundo, ajudou a criar o Encontro com Fátima Bernardes e é um grande admirador, conhecedor e especialista em Maria Bethânia — capaz de versar sobre a carreira e as músicas dela por horas, sem se repetir e sem cansar nem a si nem ao interlocutor. Sobre ela, roteirizou e dirigiu o filme “Maria – Ninguém sabe quem sou eu”.
Não foi surpresa, portanto, ouvir Jardim me contar que, após tantos anos de ralação bem-sucedida e premiada na redação, decidiu se dedicar exclusivamente à cultura. Já está em cartaz no CCBB com Nelson Rodrigues – O passado sempre tem razão, peça que escreveu e dirige. Está trabalhando no texto de outras duas peças e envolvido na produção de dois documentários.
A partir de junho, é lá, nos teatros e no cinema, que vamos continuar a conviver com o brilhantismo do Jardim. Felizmente essa movimentação está mais para troca de palco do que para despedida. Para o lugar de Carlos Jardim na chefia de redação da Globonews, convidamos Denise Lacerda, de Brasília.
Nascida em Telêmaco Borba, no interior do Paraná, Denise chegou à capital federal há 30 anos. Na Globo, atuou em diversas funções, incorporando desde cedo a alma da redação de Brasília, voltada para os acontecimentos diários que impactam a vida de toda a sociedade brasileira na Economia, na Política e na Justiça.
Foi produtora e editora do Jornal Nacional, editora e coordenadora do Jornal da Globo. Ficou à frente da coordenação do Jornal Hoje por sete anos — período intenso do jornalismo brasileiro, quando o país começava a ver políticos e empresários irem para a cadeia em um dos maiores escândalos de corrupção de sua história. Na Lava Jato, as notícias começavam bem cedo, e a redação de Brasília, junto com o Jornal Hoje, produziu alguns dos maiores furos daquela época.
Em 2020, Denise assumiu a coordenação da GloboNews em Brasília, liderando uma equipe de mais de 30 profissionais. Esteve à frente da cobertura do canal durante a pandemia e da crise institucional que culminou nos acontecimentos de 8 de janeiro.
Além de todo o talento no jornalismo, Denise tem a capacidade de unir equipes, estimular o diálogo e compartilhar conhecimento. De se mostrar companheira e parceira nos momentos de maior tensão e de grandes desafios. Essas qualidades estarão a serviço de toda a redação da Globonews a partir de 8 de junho.
Ao Jardim e à Denise, desejo muito sucesso!
Villela


