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Em crise, Record acumula prejuízo milionário e cogita demissão em massa

Foto de Cristiane Cardoso, apresentadora e herdeira da Record
Influência de Cristiane Cardoso, apresentadora e herdeira de Edir Macedo, é apontada como causa para crise financeira da Record (foto: Reprodução/Record)

A saúde financeira da Record está debilitada. Mesmo com os constantes aportes feitos pela Igreja Universal, a empresa tem acumulado prejuízos financeiros nos últimos meses: com a audiência do horário nobre em queda livre e sem perspectivas de melhora, a emissora está tendo ainda mais dificuldades em encontrar marcas interessadas em bancar projetos como as novelas Todas as Garotas em Mim, que estreia na próxima semana, e Reis, que terá mais temporadas em 2023. No mercado, o comentário é de que o déficit já ultrapassa a casa dos R$ 50 milhões. O canal nega.

No entanto, por mais que a rede negue formalmente que esteja atravessando uma crise financeira (leia no final da reportagem), os bastidores da Record apontam para outro cenário. O TV Pop apurou que executivos da companhia, dos mais diversos setores, tem sido pressionados por emissários de Edir Macedo para conseguirem melhores resultados e ao menos se aproximarem das metas impostas pela cúpula.

Internamente, a maioria dos problemas tem recaído sobre o departamento Comercial. Desde o conturbado rebaixamento de Walter Zagari, revelado pela reportagem em dezembro de 2021, os profissionais do setor passaram a se deparar com uma atípica rejeição do mercado publicitário com os projetos da emissora: desde que Alarico Naves, transferido da Record de Brasília, assumiu como superintendente da área, negociações encaminhadas travaram da noite para o dia. Contratos que já estavam quase fechados voltaram para a estaca zero e agências passaram a pedir por descontos ainda maiores do que os habituais — a empresa já fazia propostas generosas, com abatimentos na casa dos 90% — para ao menos aceitarem abrir conversas com o canal.

Não são poucos os profissionais que tem ventilado a hipótese de um boicote coordenado por Zagari: retirado da vice-presidência Comercial por conta de atritos com Cristiane Cardoso, ele não faz questão alguma de disfarçar a sua mágoa com a empresa. Bem relacionado e com mais de três décadas de atuação na área, o executivo até então visto como capaz de conseguir vender até uma geladeira estragada foi rebaixado para a função de conselheiro do setor. Na prática, ele não tem mais função alguma, e só não foi demitido pelo receio da companhia de que ele acabasse voltando para o SBT, em que trabalhou até 2002. Mesmo distante, ele nunca deixou de ter um bom relacionamento com a emissora de Silvio Santos, e é próximo das filhas do empresário.

Dias antes de ter seu rebaixamento para uma função jocosamente chamada de “rainha da Inglaterra” anunciado publicamente, o ex-chefão do departamento fazia questão de anunciar para os cartolas da publicidade nacional que havia renovado o seu contrato. Em uma mensagem publicada em um grupo com donos de diversas agências de publicidade, ele revelou que o seu vínculo havia sido renovado indefinidamente. “Renovei de novo com a empresa por tempo indeterminado. Eles me amam”, afirmou, sem saber que a sua sucessão já estava encaminhada internamente.

Mesmo sem poder algum no departamento, Walter Zagari continua se reunindo com anunciantes e tem feito promessas que não estão em sua alçada atualmente — fato que tem alimentado a teoria interna de que a crise financeira da Record está acontecendo por um boicote coordenado internamente. A reportagem do TV Pop apurou que ele prometeu recentemente para diversas empresas vantagens para anunciar em uma reformulação geral da programação, que passaria por todos os setores, do Entretenimento ao Jornalismo.

Foto de Altair Moraes no estúdio do Cidade Alerta, da Record
Altair Moraes, pastor da Universal, virou coapresentador do Cidade Alerta aos sábados (foto: Reprodução/Record)

Cortes de gastos já começaram; emissora cogita demissões

Com dificuldades de chamar a atenção de anunciantes e acumulando prejuízos com produtos deficitários, a Record tem reagido como pode. Uma das mudanças mais recentes promovidas pela companhia foi a terceirização de uma parte considerável da estrutura do departamento de Jornalismo: a parte operacional, antes gerida exclusivamente pela emissora, foi parcialmente entregue para uma produtora de conteúdo. A New Vision passou a responder pelas externas de diversos telejornais — a empresa, curiosamente, é controlada por Bruno Bezerra, sobrinho de Edir Macedo.

A movimentação, no entanto, não melhorou a saúde financeira da empresa em muita coisa: com os cofres ainda sangrando, o canal cortou boa parte da estrutura de seus programas locais jornalísticos diários em São Paulo, que passaram a recorrer com mais frequência para materiais produzidos pelas parceiras regionais da emissora. Na faixa matinal, o Balanço Geral abre apenas um intervalo durante as suas quase quatro horas diárias de exibição. Desde que Eleandro Passaia virou o único âncora do formato, em março, nem mesmo as cotas de merchandising testemunhal tem sido comercializadas.

Foto de Renato e Cristiane Cardoso, apresentadores da Record
Casal Universal: Renato e Cristiane Cardoso ganharam poder dentro da Record (foto: Divulgação/Record)

Na dramaturgia, a fonte secou: diferentemente do que acontece com tramas contemporâneas, em que há um lucro maior por conta de aplicações de product placement, os folhetins bíblicos não tem vendagem fácil. A maior parte do lucro das tramas religiosas era oriunda da comercialização para emissoras internacionais, que eram seduzidas justamente pelos grandes índices alcançados pelas primeiras produções do gênero. Com a queda de audiência, caiu também o interesse do mercado: as novelas evangélicas perderam espaço para produções turcas e espanholas.

Mesmo com o faturamento em queda, a Record não deixou de investir na produção das novelas bíblicas. Com o departamento de dramaturgia controlado por Cristiane Cardoso, que também irá responder pela autoria das próximas temporadas de Reis, orçamentos vistos como fora da realidade passaram a ser aprovados para os projetos, com viagens faraônicas para gravações de cenas e investimentos milionários em produção, em empresas habitualmente especializadas em filmes de Hollywood. Sem faturamento, o dinheiro da dramaturgia luxuosa tem vindo de outros setores.

TV Pop apurou que o departamento de Programação é um dos que mais se queixa da falta de verbas: sem dinheiro para projetos novos, o setor apelou para uma maratona de filmes reprisados para ter o que exibir nos quatro primeiros meses de 2022. Não era raro que os poucos longas disponíveis no catálogo fossem reprisados com um intervalo de apenas uma semana entre si. Isso só ficou menos pior desde o mês passado, quando finalmente — graças ao custo menor de Todas as Garotas em Mim — restou alguma verba para comprar novas produções. Novos formatos, porém, seguem sendo uma realidade distante: a ordem é continuar priorizando conteúdos já adquiridos ou de criação interna.

Vista internamente como uma tábua de salvação para o ibope em queda e para a dificuldade de comercialização do horário nobre, a sexta temporada do Power Couple Brasil acabou virando mais um problema: a emissora esperava ter facilidade para encontrar anunciantes para o reality show, mas não contava com o desgaste do gênero após o boom provocado pelo isolamento social. Com a queda de audiência do Big Brother Brasil, as agências recuaram e suspenderam investimentos em realities — nem mesmo o No Limite, da Globo, conseguiu vender a maior parte de suas cotas. O programa comandado por Adriane Galisteu não tem conseguido marcas nem para dinâmicas com confinados e, apesar de descontos de 99% em relação ao preço de tabela dados para determinados clientes, também encalhou.

Sem perspectiva alguma de que um milagre possa acontecer, os setores da emissora já começam a se acostumar com uma nova realidade: com a maioria dos executivos laicos (não relacionados à Igreja Universal do Reino de Deus) sem conseguir cumprir metas, não seria surpreendente que o núcleo religioso ascendesse ainda mais dentro da companhia. Em alguns departamentos, como no Jornalismo, isso já acontece: o pastor Altair Moraes, deputado estadual pelo Republicanos, passou a ser o principal repórter do Cidade Alerta e também é coapresentador aos sábados. Em diversas áreas, a notícia de que a Record planeja cortar 15% de seu quadro de funcionários em São Paulo até setembro tem se espalhado como pólvora.

Record nega crise financeira e demissões

Procurada pela reportagem do TV Pop, a Record negou que esteja atravessando uma crise financeira e afirmou ter tido um incremento de 15% no seu faturamento entre fevereiro e abril de 2022, quando comparado ao mesmo período do ano passado. “A informação não é verdadeira. Conforme informação do Kantar Ibope Monitor, quando comparamos fevereiro a abril de 2021 com o mesmo período desse ano, a Record TV apresentou crescimento de 15% no faturamento. Durante o primeiro trimestre desse ano, transmitimos o Paulistão e o Cariocão. Com o futebol, seis marcas muito importantes apostaram no projeto e obtiveram excelentes resultados de audiência e repercussão. Não temos a mínima previsão de demissões”, afirmou a companhia.

A emissora, no entanto, utilizou dados do Kantar Ibope Monitor para emitir o seu posicionamento. No entanto, como amplamente sabido pelo mercado publicitário, a plataforma em questão não leva em consideração eventuais descontos e negociações feitas pelo canal com os anunciantes. Ademais, uma eventual alta de faturamento pode não significar nada se os custos operacionais da empresa também tiverem sido reajustados — e a rede, em seu comunicado, não citou que teve um incremento de lucro neste ano. O TV Pop mantém todas as informações publicadas.

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