ANÁLISE

Em decadência, manhã da Record passou a ser máquina de moer talentos

Oito apresentadores passaram pelo Balanço Geral Manhã em quatro anos (foto: Reprodução/Record)
Oito apresentadores passaram pelo Balanço Geral Manhã em quatro anos (foto: Reprodução/Record)
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Poucas coisas decaíram tão rápido na história da televisão brasileira quanto a audiência da programação matinal da Record. A faixa horária, que outrora chegou a ser responsável pelos maiores índices de ibope da rede durante todo o dia, se transformou em uma autêntica máquina de moer talentos. Uma série de erros estratégicos cometidos após a inesperada morte de Marcelo Rezende, que completou quatro anos na quinta-feira (16), fez com que os telejornais matinais da emissora virassem uma sequência de bombas-relógio. O Balanço Geral Manhã, que chegou a provocar modificações até na Globo, virou responsável pela maior rotatividade de apresentadores do Jornalismo nacional.

Acha que é exagero? Pois não é: nove jornalistas foram titulares da faixa horária (a edição regional do Balanço Geral era chamada de São Paulo no Ar até novembro de 2019) nos últimos quatro anos. Após a transferência de Luiz Bacci para o Cidade Alerta, outros oito profissionais tiveram experiências no mínimo traumatizantes e fracassaram como apresentadores do horário. Lembremos, em ordem cronológica: William Travassos, Matheus Furlan, Bruno Peruka, André Azeredo, Salcy Lima, Mariana Bispo, Celso Zucatelli e Geraldo Luís.

Dos oito nomes testados desde a morte de Marcelo Rezende, só Bruno Peruka teve alguma sorte e conseguiu criar raízes na faixa matinal. Ele, que herdou o jeitão de contador de histórias de seu padrinho, pode não ter se imposto como vice-líder de audiência, mas era quem conseguia ter os índices mais dignos do horário, sempre com alguma aproximação do SBT — tanto que sobreviveu no posto durante quase quatro anos. Ele, inclusive, poderia ter tido resultados melhores se não tivesse sofrido por tanto tempo com o “fogo amigo” dos executivos da emissora.

Eternamente inconformada com as derrotas para o Primeiro Impacto, cujo orçamento é mais barato que o custo de um pacote de balas Juquinha, a Record nunca deu tempo para que algum profissional se consolidasse nas manhãs. Bruno Peruka foi o que mais chegou perto do segundo lugar em diversas ocasiões, mas a sua consolidação sempre acabava impedida por alguma mudança impulsiva, geralmente provocada por análises rasas e sem embasamento. Todas as mudanças, a bem da verdade, tiveram algo em comum: elas espantaram ainda mais os telespectadores — antes de ser rifado, o São Paulo no Ar tinha médias próximas dos 4 pontos. O Balanço Geral local sofre para dar 3.

As incontáveis trocas também costumam provocar bastidores constrangedores. André Azeredo, tirado da Globo a peso de ouro, foi expulso da faixa da noite para o dia e acabou exposto ao ridículo, se tornando personagem de um constrangedor noticiário apontando noitadas e farras como motivo para o seu afastamento. Mariana Bispo, que só completou poucas semanas no posto, mal havia terminado de trazer sua mudança do Rio de Janeiro. Geraldo Luís ainda não deixou o horário, mas vive em pé de guerra com sua equipe ao vivo.

Bruno Peruka, coitado, só virou mais um número para a desorganização e balbúrdia em que se transformaram os telejornais matinais da Record. É fato que ele descobriu que iria deixar o comando do Balanço Geral Manhã lendo que a emissora havia contratado Eleandro Passaia, que fazia sucesso no SBT de Curitiba. Nos últimos dias, várias versões circularam sobre o seu futuro na emissora: transferência para outra cidade, que seria demitido ou até que teria pedido demissão por se sentir desrespeitado pelos executivos da rede.

Não seria absurdo se, de fato, ele tivesse se demitido após quatro anos sendo jogado de um lado para o outro. Mas isso ainda não aconteceu: o pupilo de Marcelo Rezende continua na emissora e negocia a sua transferência para a RIC, parceira do canal no Paraná. O seu futuro só será definitivamente selado após a volta de Antonio Guerreiro, vice-presidente de Jornalismo da emissora — o TV Pop apurou que ele está viajando e não autorizou que outros diretores resolvessem a situação, piorando ainda mais o caos nos bastidores do telejornal matinal.

A partir de segunda-feira (20), a Record colocará no ar a sua décima ideia genial em quatro anos. Seduzido por uma substancial proposta de aumento salarial, Eleandro Passaia optou por trocar a estabilidade dada por Ratinho pelo maior moedor de carreiras da televisão nacional. Ele assumirá o comando do Balanço Geral Manhã das 5h às 7h e ganhará um dos maiores salários do telejornalismo da rede na atualidade — a reportagem apurou que ele ganhará cerca de R$ 150 mil fixos mensalmente, além de eventuais incrementos com merchandising. Na Rede Massa, seus rendimentos fixos eram de R$ 30 mil, e a emissora sequer negociou a permanência dele quando soube dos valores.

Passaia é um bom comunicador. Humilde, despojado e querido pelos colegas, poderia ter algum êxito em sua nova função se tivesse sido alçado a ela com o mínimo de planejamento. Mas não foi: ele conheceu a sede da Record pela primeira vez na tarde de quinta-feira (16) e ainda não gravou nenhum piloto para o telejornal. A divulgação, por sua vez, também beirará o ridículo: não há nenhuma chamada no ar até agora, mesmo com a estreia confirmada para a próxima segunda-feira. Os executivos da rede, aparentemente, gostam de acreditar que milagres acontecem.

Em tempo: apesar dos nove apresentadores que fracassaram em apenas quatro anos, a diretoria da emissora segue mantendo exatamente a mesma equipe, com substituições e alterações pontuais. A essa altura do campeonato, já deveria ser evidente que o problema dos matinais passa bem longe de envolver quem está a frente das câmeras.

Leia mais